Impressões de um gamer

Primeiramente, peço desculpas aos meus leitores, mas hoje não apresentarei a semanal seção Tosqueira Semanal. Fatos chegaram ao conhecimento meu  e de outros jornalistas que aqui comigo trabalham, e são fatos nada agradáveis.

Os meus mais sinceros parabéns aos políticos do nosso país. Não bastasse a mal-explicada, contraditória e, por que não dizer, imbecil medida de proibição dos jogos Counter-Strike e Everquest das prateleiras de jogos e HDs das máquinas de lan houses espalhadas pelo nosso território tupiniquim, agora teremos de engolir mais uma: Bully está oficialmente proibido no Brasil. Qual a próxima jogada, rapazes? Proibir Final Fantasy por ele ser fantasioso demais?

O jogo que tem o protagonista Jimmy Hopkins está terminantemente impedido de ser circulado, distribuído, comercializado, enfim … não será mais permitido sob nenhum aspecto. E a “fabulosa” idéia veio do Ministério Público do Rio Grande do Sul. É uma notícia que me dá um asco, um nojo, ao me fazer pensar que em terra habitada por Marcolas da vida, que mandam e desmandam dentro da própria cadeia, em nossa “terra adorada”, existem políticos presos à valores mais antigos do que a época de invenção da roda. Para essas figuras é mais fácil analisar um jogo do seu aspecto negativo. Só que o mais curioso é que, nas sessões em que eles são proibidos, há de se duvidar que exista qualquer consideração quanto aos aspectos positivos que uma diversão eletrônica apresenta. Será que houve mesmo a mínima oposição, ou tudo foi decidido por unanimidade?

É simples como somar dois e dois. Bully é, sem sombra de dúvida, um jogo com caráter mais apelativo, pesado e até mesmo violento, assim como também o é Gran Theft Auto, Manhunt, e tantos outros mais, mas ainda permitidos e em circulação . Mas será que houve alguma ponderação quanto ao fato de existir a “classificação otária”? Essa é uma variante que só aparenta ter qualquer função lá fora, pois aqui, a censura (vamos encurtar o texto, sim?) só parece trabalhar em favor daquilo que certas mãozinhas queiram dedilhar.

Segundo o MP, a nota divulgada (que nem de longe serve de justificativa, diga-se de passagem!) diz que “o jogo Bully retrata situações ditadas pela violência, provocação, corrupção, humilhação e professores inescrupulosos, nocivo à formação de crianças e adolescentes e ao público em geral” (ver site HERÓI).

Nada tão simplista e exemplarmente brasileiro do que julgar e apontar dedinhos. Basta dizer que, se um jogador decide puxar uma arma e sair matando meia dúzia de pessoas, isso foi uma projeção de seu próprio intelecto. É mais fácil cortar a corda do lado mais fraco, não é?
Se jogos violentos têm a capacidade de influenciar a mente das pessoas a ponto de torná-las insanas, então eles também o poder de ensinar, mostrar o lado benigno da vida. Por que será que ninguém pensou em proibir Ace Combat ou Flight Simulator? É fácil adivinhar: enquanto o primeiro é usado pelo Pentágono (e, conseqüentemente, pela FAB, já que Brasil é terra de pirataria até em método de treinamento) como estudo de medida contra o terrorismo aéreo (algum dos excelentíssimos ministros e outros criminosos do colarinho branco já ouviu falar em “onze de setembro”???), o segundo auxilia na formação de novos pilotos da aviação civil mundial, e esses profissionais, formados com base nesses “joguinhos”, apresentam rendimento superior àqueles da metodologia convencional. É dado comprovado em números.

Pior que isso tudo são as proibições que atingem o público em massa. Não sou fã da rede de luta-livre WWE, mas discordo de seu impedimento, já que ali, não precisa de muito raciocínio para saber que ninguém luta. Será que é por isso que eles se chamam “artistas marciais”?
Na internet, elemento que já se tornou uma das muitas chaves da vida humana, já é estudada a proibição do WordPress no Brasil, por ele conter “conteúdo favorável à pedofilia e ao anarquismo”. É isso mesmo: vocês podem ficar sem ler os meus textos a qualquer momento. Vai saber se não tem um ministrinho me monitorando agora, com o intuito de achar palavras “duvidosas” e me tirar do ar? O pior é que isso não vale só para mim: eu não sou o único blogueiro a utilizar os serviços do WordPress. Tem gente que tira a renda mensal daqui.
Qual é mesmo o nome daquela época que o Brasil passou, felizmente terminada, mas jamais esquecida? Aquela, em que “presidente” e “general” eram sinônimos, assim como “humanos” e “carne de gado”?

Os únicos a serem culpados disso tudo somos nós mesmo, consumidores. E por causa de nossa parca sensatez, acabamos lesando a nossa própria vontade. Ou vai dizer que você, pai de família, NUNCA permitiu que seu filho decapitasse monstros no videogame, ou assistisse filmes “não recomendados para menores de 18 anos”? Não adianta esconder. Comigo foi assim: minha mãe tentou me impedir de jogar Mortal Kombat por diversas ocasiões, mas sempre que ela me pegava com o controle na mão e aquele jogo na tela, o máximo que me acontecia era um sermão, e a jogatina continuava.
Tais liberdades, a nós garantidas desde o berço, acabam por macular a imagem de algo que só quer proporcionar divertimento. Seja TV, internet, música ou games, não há como impedir uma pessoa de tomar atitudes duvidáveis. Mas o que dá para fazer é usar dos fundamentos racionais do ser humano, sem juízo de valores, para determinar que medida seria a melhor para aquele parâmetro?

Nas palavras de Pablo Miyazawa, em coluna escrita na edição 74 da revista EGM Brasil, a publicação mais competente quando o assunto é game, “VIDEOGAMES NÃO SÃO PREJUDICIAIS À SAÚDE, NÃO TORNAM NINGUÉM VICIADO E NÃO TRANSFORMAM INOCENTES EM ASSASSINOS SERIAIS”. Em termos resumidos, videogames não são máquinas de matar, mas apenas máquinas. Se fosse assim, um jogador de Pro Evolution Soccer seria o próximo Kaká.

Graças à Deus, que deve ser um gamer de mão cheia, existem pessoas que enxergam essa verdade, além de homens feitos como Pablo, Ricardo Farah, Rodolfo Braz, Orlando Ortiz, Allan André, Ricardo Caetano, e tantos outros mais, além de mim mesmo, e não deixam-se iludir por falsas especulações e números de pesquisa sem sentido tentando forjar comprovações ainda mais descabeçadas.

Mas nada acontecerá, a não ser a proibição total de qualquer ramo que, aos olhos desses, e somente desses, dinossauros retrógrados e parados no tempo decidam que é feio, sujo, violento e prejudicial.

Mas a esperança é sempre a última que morre, e se morrer, não vai ser de um headshot a la Counter-Strike. Lembrem-se, caros senhores, que boa parte da economia se deu ao BOOM de lan houses que pululavam nas esquinas brasileiras há alguns poucos anos. Pensem vocês que estão tirando não só o ganha-pão de muita gente, mas também desacreditando, barrando e impedindo o crescimento e a sustentação de um mercado que só tem a oferecer maravilhas. Ou a vinda da Synergex, uma das maiores distribuidoras de produtos eletrônico para o Brasil nada significa para vocês? E franquias enormes do gênero decidindo expandir seu mercado para algo um pouquinho abaixo da linha do Equador? A GAMERS, cadeia de lojas que seria algo como o McDonald’s dos jogos eletrônicos, planeja tomar a Santa Ifigênia, reduto da pirataria, mídias virgens, torrents e peças não reconhecidas pelo mercado oficial, ou então importadas a preços exorbitantes quando se decide fazer tudo legalmente. Vocês têm a mais simplória idéia do que isso poderia trazer para o mercado nacional?

Para finalizar: mais uma vez citando a Santa Ifigênia, e outros redutos do “alternativismo eletrônico”, para onde vocês pensam que o jogador impedido vai correr assim que seus jogos favoritos forem descontinuados?

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