Quanto mais muda, mais continua a mesma coisa: Arnaldo Jabor, 1997*

*Texto de autoria assinada por André Forastieri (alô, chefão!), na Caros Amigos, no ano de 1997. Faço dele as minhas palavras…

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Uma das tundas mais satisfatórias que dei em alguém. Não adiantou nada.  Jabor foi ficando cada vez mais famoso, rico e popular, inclusive como autor, o que é de desanimar até um otimista persistente como eu.

Mas desopilou o fígado.

forastaJABOR ALÉM DOS LIMITES

Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita

 Regra nº 28 para viver melhor: evite coisas que você sabe que vão te irritar. Tento seguir. Não leio, por exemplo, Arnaldo Jabor.

Pessoalmente, o sujeito é simpaticão. Tem aquele jeitão à vontade Rio anos 60. Fomos apresentados na redação da Folha, quando eu trabalhava no Folhateen, 1991. Ainda não era personalidade de tevê, só diretor de cinema e uma das apostas da Folha para substituir Paulo Francis.

Jabor leu um texto meu sobre o dr. Hunter S. Thompson, jornalista gonzo e cowboy fora-da-lei. Diz que parece uma figura interessante, está indo para Los Angeles e queria aproveitar para entrevistar o cara. Explico: Hunter mora num rancho isolado perto de Aspen, longinho de L.A.; dá entrevistas em anos bissextos, quase só para velhos companheiros de birita e detonação – é mais fácil uma exclusiva com o papa.

Jabor insiste. Sugiro contato com a editora americana ou a Rolling Stone, onde HST sempre escreveu. Não sei se ele tentou o contato. Sei que a entrevista não saiu.

Pego esta semana uma nova revista de literatura chamada Cult e, adivinha, lá está Jabor citando como grandes influências (depois de Eça de Queirós, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues e americanos tipo Faulkner e Steinbeck) “alguns autores menores, como Norman Mailer… e Hunter Thompson, um dos autores do new journalism”.

Tem de ser muito cabotino para chamar Mailer de autor menor e muito cara-de-pau para citar Hunter Thompson assim como quem não quer nada. Você acreditaria que Jabor leu Thompson desde que fomos apresentados? Você acredita que o Brasil é o país do futuro?

Na mesma entrevista, Arnaldo Jabor explica: “Apesar das loucuras dele, o Francis foi um jornalista muito importante… Francis escreveu um artigo de autocrítica fundamental sobre o fracasso do pensamento delirante da chamada esquerda brasileira. Ele criou uma loucura dentro desse pensamento que depois o Glauber aprofunda em Terra em Transe e que o Caetano aprofunda com o tropicalismo”.

Escuta aqui, cinema não aprofunda artigo de ninguém, e Caetano Veloso só aprofunda meu constrangimento de viver neste país. O Francis morreu enfrentando um processo de 100 milhões de dólares do mesmo governo que o Jabor vive defendendo.

Mais, o Francis apoiou o FHC para presidente e meses depois estava malhando o governo dele. Jabor, como Gilberto Gil, Sônia Braga e outra gente do mesmo calibre, leva esse negócio de comer na mesa dos poderosos a sério: foram até jantar com Clinton e o Totoso, não?

E os press-releases do consenso tucano-classe-média que Jabor divulga na Globo? Com a palavra, o diretor da mais longa propaganda de vodca da história, Eu Sei que Vou te Amar: “É estranho que até hoje ninguém tenha falado na imprensa sobre o que estou fazendo no Jornal Nacional. É uma forma de arte conceitual e ninguém se tocou disso”.

Pretensão sem limites, oportunismo disfarçado de modernidade, subintelectuais ditando as regras. É o tom da vida pública no Brasil 97. Que alguém leve a sério o que essa gente diz me envergonha, entristece e irrita.

Pior, me sinto meio trouxa de gastar espaço com assunto tão inútil.

Porque sei que neste planeta e neste país existe vida inteligente. Gente de verdade com sangue nas veias, gente que precisa ser conhecida, que merece muito mais ocupar estas linhas.

Mas certas coisas indigestas precisam ser vomitadas. E isso, você sabe, é uma daquelas que só se fazem entre caros amigos.

(Caros Amigos, 1997)

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LINK DO ORIGINAL: CLIQUE AQUI

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