Recado às empresas e jornalistas de games

É pauta comum em praticamente todos os sites gringos de notícias de games: sempre tem, e se não tver, há de ter, um vídeo com o nome Unboxing nele. Antes de começar a reclamar da vida, algo que faço muito bem, obrigado – vale a explicação do que é o unboxing: trata-se de um post em qualquer site/blog onde se publica um vídeo de alguém da sua equipe abrindo a caixa de algum item recebido pelo correio. Um exemplo disso está nesse link aqui: um unboxing de Bioshock 2, jogo super antecipado que está sendo lançado pela 2K Games.

Agora, sabe por que eu disse “todos os sites GRINGOS de games”? Porque isso é algo praticamente impossível de ser visto aqui no Brasil. E é sobre isso que quero falar nesse post, então, por obséquio, clique no link abaixo, sim?

Não me falam começar com aqueles papos de que o mercado nacional é uma merda, que a pirataria deixa tudo uma merda ainda mais mole e fedida, e que o governo é o culpado de toda essa merda, afinal, estamos todos velhos demais para essa merda. O ponto que pretendo discutir agora: até onde é válido se rebaixar às condições a que você é submetido e dizer “Foda-se, é assim que a coisa funciona por aqui”, e qual é a hora – se é que ela existe – de fazer alguma coisa?

É fato que ninguém faz porra nenhuma sozinho, mas convenhamos: o Brasil só tem uma indústria de games tão firme quanto piroca de velho com doença em fase terminal porque nós, jornalistas de games, operamos dez milagres por dia pra fazer essa Casa da Mãe Joana rodar com um mínimo de presença. As assessorias não fazem nada, os lojistas oficiais não fazem nada  (os não oficiais, menos ainda), e o governo, é melhor eu nem começar, logo, é o mecanismo da imprensa – o “Quarto Poder” – quem consegue manter vivo um lampejo de conhecimento da área. É só parar para pensar: não fossem os zilhões de blogs e algumas revistas nacionais, como vocês fariam para se aprofundar no conhecimento sobre o mercado mundial dos videogames? Claro, qualquer um acessa um Kotaku da vida e lê as notícias…ah, é, você tem que manjar – e manjar bem – de inglês pra isso. Mancada minha.

Somos nós, jornalistas diplomados e não diplomados, que fazemos propaganda gratuita para qualquer assessoria de imprensa daqui, uma vez que é tudo terceirizada. Mais: fazemos isso antes mesmo deles pensarem em qualquer ação publicitária. Não fugirei à ética mas na última semana fiquei sabendo que determinados jogos viriam ao país apenas por determinada distribuidora, antes mesmo que isso fosse oficialmente sacramentado – e olha que não faz tanto tempo assim que voltei a ter um emprego na área. O que aconteceu? Imediatamente, blogs e sites brasileiros, incuindo eu mesmo, começaram a apitar rumores, sendo que dias depois, dita distribuidora enviou o release confirmando o que todo mundo já sabia.

Fato é que a falta de incentivo para o crescimento desse mercado só contribui para a desvalorização do trabalho do profissional de games: temos faculdades que adentram lições nesse ramo, eventos de grande porte distribuídos em diversos estados do país, temos poder aquisitivo para darmos o pontapé inicial, temos o potencial e o interessse público (público = pessoas ≠ poder público), mas nos falta a estrutura de base, justamente aquela que depende de valorizaçã governamental e iniciativa privada internacional para que tenha uma pequena faísca de onde possamos começar a queimar a lenha.

Somos foda? Sim, somos. Com todas as letras: S-O-M-O-S F-O-D-A! Sabe por quê? Porque somos o estereótipo do brasileiro otário: aqui, nessa terra de valores inversos, você é o espertão do bairro se você desiste de alguma coisa com argumentação. Você é malandro porque consegue comprar 20 jogos diferentes com a mesma grana que eu gasto para comprar um. Eu, por outro lado, sou um otário por gastar o dinheiro que não tenho na compra de bens supérfluos. Sou um otário por acreditar em algo cujas evidências se cansam de esfregar na minha cara que isso é um esforço perdido.

Jornalista de games – e otário orgulhoso – é o que sou, por paixão, devoção e profissão. Mas sinceramente, essa vida de “abaixa a cabeça, é tudo terceirizado” e “esse review vai sair se o chefão autorizar a compra dos jogos” me cansa. Cadê as produtoras que dizem que respeitam nosso mercado, mas não fazem chongas para ajudar a gente? Cadê as distribuidoras – aqui e fora daqui – que sabem de tudo isso que estou citando, mas não colaboram com nada? Onde andam as developers que prometem “todas as imagens de um jogo para a sua revista”, mas lançam no dia seguinte uma série de imagens novíssimas em um IGN qualquer? A quantas anda o acordo de 2009 de uma produtora e uma distribuidora para distribuição de jogos a baixo custo, agora que dita produtora decidiu parar de fugir do território tupiniquim e finalmente nos colocou em sua lista de negócios? Quem é mais atento sabe de quem estou falando – e sim, estou falando de vocês, com vocês.

Quero melhorar, quero ver isso crescer. Desejo de criança mimada quando pede algo para o pai, mas se chegamos a esse ponto, como gamers, como jornalistas, como cidadãos, a culpa não é nossa – é do resto. E por resto, cada um tem sua opinião: governo, pirataria, distribuidoras, assessorias de imprensa que não assessoriam nada, produtoras, tarifas de importação. Você escolhe o seu veneno e sua vítima. Destile. Brigue. Procure. Se é algo que você quer muito, então é algo pelo qual vale a pena lutar.

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