Marvel tá com desculpinha, ou “Como (NÃO) matar um super-herói”

Li a edição (norte-americana) de Ultimate Comics Spider-Man #160. Como um jogo altamente antecipado, a Marvel não poupou esforços em “hypear” essa edição que, segundo a própria editora, prometia balançar todas as estruturas do universo que envolve o velho Amigo da Vizinhança. Continue lendo no link após a imagem (AVISO DE SPOILERS! LEIA POR SUA CONTA E RISCO!). Clique nas imagens para vê-las em tamanho completo.

Capa de "Ultimate Comics Spider-Man #160"

Capa de "Ultimate Comics Spider-Man #160"

Para quem não sabe, Ultimate Comics Spider-Man #160 traz a morte de Peter Parker. O eterno fotojornalista que aguentava a gritaria de J. Jonah Jameson no Clarim Diário não está mais entre nós, tendo pago o maior de todos os sacrifícios para proteger aqueles a quem ele sempre amou, em um “pega-pra-capar” final com o Duende Verde. Apesar do final da história se desenrolar perante aos meus olhos de forma épica, o caminho que levou a isso e, acima de tudo, o caminho que se seguirá depois disso me parecem meio forçados, mal trabalhados. Não quero detalhar muito para não entregar o ouro: a edição final de Peter Parker é, apesar dos pesares, muito bem produzida e merece sua leitura quando a Panini a trouxer para o Brasil.

A questão é: o que vem depois? Ou melhor: quem vem depois? Peter Parker deixou um legado de nada menos que dez anos vestindo o manto sagrado corinthiano do Homem-Aranha e, claro, a Marvel não deixaria de fazer dinheiro com o escalador de paredes. Assim sendo, é óbvio que alguém tomaria o lugar daquele que desposou Mary Jane Watson, possivelmente a ruiva mais gostosa lembrada pela cultura nerd.

Pois, se fazendo essa mesma pergunta desde a última semana, o pessoal do USA Today mostrou hoje, com exclusividade, o sucessor do heróico disparador de teias. E, dada a minha ótima impressão do desfecho da vida de Peter Parker, peço licença para achar que a vida desse novo guerreiro já começou conturbada.

Miles Morales, o novo Homem-Aranha

Miles Morales, o novo Homem-Aranha

Conheça Miles Morales, meio hispânico, meio negro – e novo dono do uniforme do Homem-Aranha. Detalhes sobre como ele assumiu esse posto, bem como sua relação anterior com Peter Parker, ainda estão pendentes de revelação. Mas sabe-se que, em sua primeira aparição, ele se limitará a apartar uma briga – embora, sobre tal briga, ninguém tenha dito se é um “troca-bolachas” entre dois humanos normais ou algum “quebra-tudo-no-caminho-e-eventualmente-eu-te-mato” entre supervilões. Por isso, as linhas a seguir podem estar erradas conforme tais revelações sejam feitas.

Acompanhando os quadrinhos mais recentes (e, aqui, saindo somente da Marvel e incluindo a concorrente DC na conversa), estamos vendo uma silenciosa revolução em algumas tramas: além do exemplo dado com “old Spidey”, Batwoman é agora uma lésbica judia.

“Ah, mas você tem algum preconceito contra isso?” Não. Não tenho. Sou completamente a favor do favorecimento de minorias em todos os tipos de mídia, inclua nisso a mídia chamada vida real. Para quem conhece, os quadrinhos Authority exibem um casal gay masculino – e são heróis que brigam igual homem, o que é melhor ainda, pois fogem do estereótipo de que “biba só briga de tapa”. Daken, filho de Wolverine, não é gay, mas já beijou outro homem, explicitamente. Já faz um tempinho, mas Estrela Polar e Colossus, no universo X-Men, protagonizavam um romance e Heitor, um dos membros do antigo Panteão (uma tentativa meio inócua da Marvel em dar ao Incrível Hulk a liderança de um grupo de “super-heróis”, isso lá no final da década de 1990) era gay assumido, defensor dos direitos homossexuais e, entre idas e vindas, um caso com o mesmo Estrela Polar. Me lembro de uma edição de O Incrível Hulk, inclusive, que tentava desmentir a correlação idiota feita por algumas pessoas, de que “você é gay = você tem AIDS”. Na época não compreendia, mas vejo hoje que foi uma tentativa de se passar uma mensagem.

Capa de "Ultimate Fallout #4", que revela Morales como o novo Homem-Aranha

Capa de "Ultimate Fallout #4", que revela Morales como o novo Homem-Aranha

A questão é que usar minorias para escrever determinadas histórias era, há um tempo atrás, uma manobra bastante útil e, por que não dizer, louvável das grandes editoras. Mas esse louvor todo, hoje, está se tornando uma ferramenta gratuita de autopromoção, o que pode comprometer as sagas dos quadrinhos como um todo. Antes, era cool mostrar o apoio a minorias através de personagens que tivessem participação relativamente grande em grandes arcos dos quadrinhos (Daken é o melhor exemplo, apesar de que sua ação homossexual foi diminuta). Hoje, temo que isso está começando a virar jogada de marketing.

Matar o Homem-Aranha para inserir outro em seu lugar? Não que a Marvel tivesse a obrigação de inserir um caucasiano de cabelos castanhos e lisos, olhos claros e corpo esculpido. Mas, ao longo de todo enredo em qualquer mídia, as minorias favorecidas só eram de fato favorecidas quando algo era criado do zero. Quer um exemplo? Tem um na própria Marvel: Tchalla, o Pantera Negra, rei de Wakanda, Vingador ocasional e, eventualmente, marido da Tempestade, dos X-Men. Outro? Bishop, nos X-Men, tinha pele escura, cabelos longos, porém não lisos. Embora fossem secundários dentro do escopo a que pertenciam (Tchalla, bem mais que Bishop, inclusive), qualquer pessoa que tenha um conhecimento mínimo no universo dos quadrinhos se lembra de ambos apenas diante da menção de seus nomes.

O que tento dizer com essa novela é que, por mais louvável que seja essa ideologia, adicionar minorias está se tornando, para grandes empresas, uma grande manobra do que simplesmente uma mensagem. A Marvel não está colocando Morales no papel do maior herói de Manhattan por querer ele ali, mas por ter que ter ele ali. E isso me incomoda, já que a mesma manobra não vem sendo utilizada em outras mídias: Marvel versus Capcom, o novo filme do aracnídeo (The Amazing Spider-Man) – todos eles ainda figuram Peter Parker no papel do escalador de paredes. O uso de Miles, ainda que inicial, dentro de outros escopos que não o gibi, me provaria errado e invalidaria esse post. Infelizmente, não é o caso.

Tomara que as grandes produtoras de conteúdo – não só quadrinhos, mas qualquer outra – se engajem em favorecer um pouco mais as minorias, sejam elas sexuais, religiosas ou étnicas. Mas usar isso para um marketing tão…deslavado não é, para mim, uma estratégia válida.

Fonte: USA Today
Imagens: Marvel.com

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