Crítica: Planeta dos Macacos: A Origem

A primeira vez em que assisti Planeta dos Macacos foi com o meu pai. Era o original – e já eram anos 90 quase que passados, logo, toda a ambientação vivenciada por Charlton Heston me pareceu extremamente mal feita (eu tinha menos de dez anos para um filme da década de 1960 – quebra meu galho, vai). Daí, veio o remake, em 2001, com Mark Whalberg no papel principal, uma história horrendamente reconstruída (um vortex que empurrou a nave milhares de anos no futuro? Um macaco em outra nave organizou um motim milhares de anos antes? SÉRIO???). Desnecessário dizer: detestei. Aí veio Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of Apes – e sim, a tradução para o pt-br é deveras tosca, como sempre). “PQP, mais uma cagada daquelas bem fedorentas atrocidade moderna cometida contra um filme maravilhoso”, pensei. Mesmo assim, por causa da namorada em nome do bom jornalismo, dei ao filme o benefício da dúvida e fui até o Kinoplex Itaim para conferir de perto a película. E não, não foi em “treis-dê”.

Ao sair da sessão, minha gente… Qual não foi a minha felicidade ao ver que estava completamente enganado. Se aquele lindo meu amigo Borbs me permite parafraseá-lo, “PdM: A Origem” é “tudo isso” e muito mais…

Planeta dos Macacos: A Origem não é, ao contrário do que se vinha noticiando por aí, um “remake” propriamente dito. Este filme é mais um reboot, cuja intenção é dar uma nova origem à uma possível nova série de filmes. Não se alinha diretamente aos efeitos cronológicos das produções que vimos até aqui, embora alguns elementos contenham similaridades com a película filmada em 1968. A ideia é que a história em torno do nome “Planet of Apes” tenha uma base mais “pé no chão”, com o perdão da gíria.

A trama deste filme gira em torno de Will Rodman (James Franco – trilogia Homem-Aranha), um geneticista no comando de uma equipe que está testando em chimpanzés um composto químico cuja promessa, entre outras coisas, é curar o mal de Alzheimer. Devido a uma reviravolta de eventos, o símio-cobaia mais promissor acaba sacrificado – a tiros – pela equipe de segurança da empresa onde trabalha Rodman. O que ninguém sabia era que a primata acabara de dar à luz – e o pequeno rebento, a ser posteriormente adotado por Rodman e chamado Caesar – havia herdado os progressos da mãe, mostrando, conforme os anos vão passando, extensos aprimoramentos cognitivos e de inteligência: Caesar possui reflexos perceptivos em níveis humanos. Mais uma reviravolta de eventos leva Caesar a ser hostilizado tanto pelos humanos, o que o faz ser internado num abrigo para primatas, onde ele passa a ser maltratado pelos humanos que gerenciam o estabelecimento. Eventualmente, a raiva de Caesar vai ganhando patamares mais “humanescos”, “ensinando” ao símio o que é o sentimento de vingança.

O mais interessante em “Planeta dos Macacos: A Origem” é que, por mais que o filme tente passar a mensagem de “Com a Mãe Natureza, não se brinca”, não há nenhuma desgraça homérica que justifique o extermínio da raça humana. A receita básica é seguida à risca – algo que está em extrema falta hoje em dia: o enredo é denso, te faz pensar nas consequências do que transcorre na tela do cinema. Mais além, a tecnologia empregada é um tópico que merece seu próprio destaque: esqueça quilos de maquiagem que deformam atores e os fazem parecer macacos híbridos. Esqueça próteses de movimento que simulam o andar de um gorila. Aqui, a regra foi captura de movimentos – e nisso, meu amigo, está um excelente highlight: Caesar é vivido por ninguém menos que Andy Serkis, o Gollum, da trilogia “O Senhor dos Anéis”.

A atuação de Serkis está tão perfeita, tão bem-feita, que houveram momentos em que me peguei perguntando quem havia treinado o macaco-protagonista, esquecendo-me de que aquilo era um ator muito competente. É, o nível de realismo que Serkis promove com seu personagem é dessa qualidade que justifica um parágrafo dedicado apenas para falar disso. Não estou me referindo aos saltos animalescos (trocadilho intencional) ou aos rugidos criados por moduladores de voz e engenharia de som. Falo de nuances como grunhidos de comunicação, as mãos tortas de um autêntico chimpanzé, a mania de “andar de cócoras” que quase todos os primatas tem. Isso mostra a qualidade com a qual Serkis representa.

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Mas o fator mais destacável – e louvável – de “Planeta dos Macacos: A Origem” é o fato de que ele simplesmente não precisa do prefixo “Planeta dos Macacos”. O filme se preocupa apenas em relacionar-se com uma grande franquia em seus primeiros minutos. Depois, é uma película perfeitamente capaz de se sustentar com as próprias pernas. Todo o conjunto da obra – o enredo denso, os atores que retrataram personagens realmente imersivos (o filme é capaz de desvincular o jovem Tom Felton do vilão pestinha Draco Malfoy, da série Harry Potter, pelo amor de Deus!), a forma como a trama se desenvolve de forma racional – contribui para que este seja apenas o primeiro de, pelo menos, uma trilogia.

Eu sempre temi continuações e retomadas de filmes famosos, por um motivo perfeitamente válido: filmes que começam, desenvolvem e terminam uma história com apenas uma edição não são produtos a serem revisitados. Foi assim com Tropa de Elite e, agora, com Planeta dos Macacos. Ambos me provaram errado, o que me deixou muito contente com o (caro) ingresso que me cobraram em cada uma dessas sessões. Ainda não foi o suficiente para mudar a minha concepção em relação à continuações, mas já é o bastante para me fazer considerar que há, sim, a possibilidade de retomada de grandes clássicos. Definitivamente, esse é um filme que vale o gasto.

FICHA TÉCNICA
Nome: Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of Apes) (2011)
Produção: FOX
Elenco: James Franco (Will Rodman); Caroline Aranha (Freida Pinto); John Lithgow (Charles Rodman); Brian Cox (John Landon); Tom Felton (Dodge Landon); David Oyelowo (Steven Jacobs); Tyler Labine (Robert Franklin)
Direção & roteiro: Rupert Wyatt (Diretor); Rick Jaffa (roteiro); Amanda Silver (roteiro)
Site oficial: www.apeswillrise.com

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