“Fui vítima de um ataque heterofóbico”

Foi essa uma das retóricas usadas por Daniel Barbosa, 26, em entrevista respondida via e-mail ao G1. Na reportagem, autorada por Kleber Tomaz, o entrevistado, que está sendo investigado pela Polícia Civil por, junto de um amigo, agredir um casal de homossexuais em um posto próximo ao Sonique Bar, na capital paulistana (o mesmo clube onde rolou um certo evento aí…). Naturalmente, as respostas passaram por “triagem” do advogado do acusado.

E é aí que reside a cagada…

A vantagem de você ser jornalista (ou de você se prezar a ler com frequência…) é que você adquire uma capacidade quase que sobre-humana de distinção textual. Em outras palavras, você sabe só de bater o olho se aquele texto foi respondido por aquela pessoa, ou se palavras foram inseridas no meio do bolo por terceiros. No caso dessa entrevista, dá para perceber que a) o advogado colocou frases próprias (isso, se não respondeu as perguntas por conta); e b) puta defensorzinho fraco, hein?

Tanto “a” como “b” se explicam, com citações e comentários abaixo:

Não tenho nem nunca tive preconceito e nada contra homossexuais, inclusive frequento lugares e baladas GLS

Isso não te isenta da acusação, champs. Frequentar um lugar comumente utilizado pelo público GLS não te torna GLS. No máximo, seus amiguinhos enrustidos homofóbicos converteriam isso em comentários. É, eu sei quais são: o “grosso” do mercado de executivos de assessoria de imprensa é constituído de homossexuais, então é óbvio que eu já ouvi tudo isso. Estar em um lugar não o torna fiel a ele ou a quem o frequenta. Na verdade, dada a disposição que você alegremente mostra na câmera de vídeo que capturou sua cútis durante a discussão, é fácil dizer que você estava propenso a ir ao lugar para arrumar encrenca. Possível? Sim, embora eu ache improvável. Mas o exemplo vale para que falácias te defendendo são tão válidas quanto falácias te acusando.

[Sobre a vida profissional] Está totalmente descontrolada pois trabalho com restaurantes na cozinha, eventos freelancers. Moro em Santa Catarina (…) e estou tendo que ficar em casa para resolver esse caso

Aqui, o advogado entra na dança: a ideia é retratar Barbosa como um homem que está passando por uma dificuldade imensa ao ter que “deixar de trabalhar” para tratar da acusação. Mas olha só: isso está na lei. Culpado ou não, você não faz nada mais que a sua obrigação em “resolver esse caso”. Falar isso em uma entrevista tem o efeito totalmente oposto ao que se procura – ou seja, para alguns, seu advogado pode ter passado a ideia de que você é um culpado que está desesperado para sair correndo sem ter que prestar contas.

[Sobre não se apresentar à Polícia para esclarecimentos] Só fiquei sabendo de toda essa confusão quando meu amigo me avisou que estava na mídia e que estavam me acusando. Daí entrei em contato com um amigo advogado, que entrou em contato com a delegacia, marcando data para a minha apresentação”

Bom mesmo é ver sua justificativa invalidando sua resposta. Ok, todos tem direito à defesa judicial. Isso inclusive está na lei federal. A questão é: precisou da interferência advocatícia logo no primeiro minuto em que a bomba estourou na sua mão? Boa parte dos inocentes se apresenta por espontaneidade, apenas avisando as autoridades que, dali em diante, haverá a presença de um jurista em sua defesa.

[Sobre se considerar violento] Ao contrário. Sou muito calmo, sou surfista, moro na praia, paz e amor, gosto da natureza, tanto que não tenho nenhum histórico de briga antes, nunca briguei na vida

Filhão, uma dica: surfista é tão encrenqueiro quanto metaleiro, jogador de pebolim, membro de torcida organizada. O rótulo não faz a pessoa: basta pisar no calo certo, com a intensidade certa (bate em cachorro na minha frente pra você ver…).

[Sobre suposta agressão à ex-namorada e acidente de trânsito] Não faço ideia de nenhuma dessas acusações, e hoje liguei para a minha ex-namorada e perguntei se ela já tinha feito algum BO sobre mim. Ela disse que jamais, agora acidente já caí de moto, bati carro, mas só quebrou o pára-choque

“Não fazer BO” e “não agredir” não são sinônimos. E, convenhamos, pra quem bateu carro e moto tanto assim, um “vai tomar no cú” pelo menos você falou pro motorista, vai…ou a culpa dos acidentes foi sua?

Ninguém aqui está acusando o Barbosa de nada. Para todos os efeitos, ele pode muito bem ser inocente, já que a camera que o capturou em video mostra apenas a discussão, mas não a briga de facto. Acusação por acusação, eu prefiro me manter neutro e deixar a decisão para as autoridades. Mas, para quem se apega tanto à suposta inocência, suas defesas estão um tanto quanto sem base. Seu advogado, penso eu, é bem capaz de deixá-lo mais no gelo fino que qualquer vídeo. Tem que ver isso aí…

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