“Por que eu não dirijo” ou “Tô bem melhor no meu busão do que você no seu carrão”

Eu digitei "anticarro" no Google e apareceu isso, mas você entendeu, né?

Acho engraçado quando muita gente arregala o olho ao saber que não tenho carro simplesmente porque não quero. Mais engraçado ainda é os olhos dessas mesmas pessoas saltarem das órbitas, a la ‘O Maskara, quando eu vou mais além e afirmo de boca cheia: “Não tenho habilitação”.

As reações são as mais variadas possíveis – embora todas sejam previsíveis: “Mas como assim? Quantos anos você tem mesmo? 25? Nossa! Acho que eu dirijo desde que tenho 18, aprendi com 14…” e por aí vai. A questão é: eu aprendi a dirigir: é a minha experiência no assunto que é parca na melhor das situações – e isso é deliberado. Não faço isso porque não quero fazer. Ponto.

Eu poderia citar um monte de motivos que me fazem não querer sentar atrás de um volante, mas vou me atrelar aos três mais práticos:

“USAR UM CARRO É CARO DEMAIS”

Faça as contas comigo: você compra um carro popular – um GOL 2012 – modelo 1.0, FLEX, 4 portas, se você preferir. O preço de um desses, segundo a FIPE, é de R$ 29.714,00. Arredondemos para 30 mil (por que, né? O que são trezentos reais a mais pra quem tá financiando vinte e nove mil?).

Dependendo da negociação que você fizer com o banco a alienar o veículo (o percentual de pessoas que compram carro 0km à vista, mesmo um popular, é ridículo de tão pequeno – nem vale colocar aqui), você pode levar um ano de IPVA na faixa, ou documentação sem custo, mas vamos desconsiderar aqui os opcionais do veículo. Agora, adicione o combustível, supondo neste exemplo, que você prefira gasolina: eu chuto uns R$200,00 – R$ 250,00. Passei perto? Dentro de um ano, você terá o IPVA para pagar, que sofre reajuste a cada ano. Isso, claro, mantendo-me

Meu GOL novo....oh, wait...

apenas nos padrões, já que também devem entrar na dança o seguro e eventuais custos com manutenção e revisão (o GOL ainda é o carro preferido de ladrões, o que aumenta o valor do seguro).

Pois eu, de ônibus, gasto R$ 120,00 por mês. E com esse gasto, eu moro na zona leste paulistana, trabalho no Morumbi, namoro e vou à academia. Saio também aos finais de semana com amigos e me sobra mais dinheiro pra ser o cara legal que paga partes maiores na conta do bar.

Sem falar que, correm as más línguas (leia “Facebook“), que, aproximadamente pelo mesmo valor, você compra nos EUA um Shelby Cobra GT500 novinho…

“SE FODE AÍ COM O TRÂNSITO”

Salvo raras exceções, a jornada trabalhista brasileira – ou, ao menos, a paulista, costuma ser das 9h às 18h, com umas horas a mais ou menos, caso você não seja estagiário, que normalmente se divide em dois turnos e não tem carro. Com um carro próprio, você tem a comodidade de…. Se ver engarrafado na Marginal Tietê, Radial Leste, 23 de Maio, Túnel Ayrton Senna, Berrini ou qualquer outra via que leve a centros comerciais do empresariado paulistano.

Pfffff...amadores...

Se eu escapo de tal situação? Não, pra falar a verdade. No Metrô, eu fico engarrafado em meio ao aglomerado de pessoas por milímetro quadrado, e de ônibus eu pego o mesmo trânsito que você. A minha vantagem, bem…eu estou pagando menos, mas isso não será argumento aqui. O que será argumento é que estou…

1) Dormindo. A vantagem de se morar na zona leste é que eu pego ônibus de um ponto final a outro. Embora isso possa tornar a viagem enfadonha, também quer dizer que embarco nos coletivos cedo, vazios, escolhendo a poltrona mais acolchoada para descansar minha bunda flácida, meus 108,4 kg e meu 1,07m de pernas, recostar a cabeça e dormir até que minha boca abra involuntariamente e outros passageiros tirem sarro da minha cara. Assim, ó.

2) Economizando. Tá, eu menti: vou usar o argumento da grana de novo. Lembre-se que, no trânsito, com o seu motor ligado, seu carro está parado mas ainda bebe gasolina. Em outras palavras, você está pagando por algo que deveria, mas não pode fazer, que é se locomover apropriadamente. Enquanto isso, eu estou dormindo, de caroneiro, com um preço fixo.

3) Chego onde quero, antes que você e mais calmo que você. Pense o que quiser, contradiga-me o quanto quiser, mas é fato: eu vou chegar antes que você. Claro, isso supondo que seu trajeto tenha a mínima semelhança com o meu (se você mora perto do trampo, então você é café-com-leite – e se ainda assim você usa o carro, aqui pra você). Sem falar que, enquanto você amaldiçoa o trânsito pela bronca que levou do chefe por causa do seu atraso de trinta minutos, eu cheguei no meu horário e ainda enrolei pra caraio adiantei meu serviço like a boss.

SIM, EU SAIO DE FARRA TAMBÉM

É a lei, gente...

Rebato todo e qualquer argumento que indique a impossibilidade de sair até altas horas pela ausência de transporte coletivo. Na verdade, levo a situação de volta a você, caro motorista, mais uma vez demonstrando minha superioridade 🙂

Sim, eu saio. E não é pouco, diga-se. Acontece que eu ganho o suficiente para pagar um táxi para um retorno seguro à residência – e ainda uso o “Táxi Amigão”, que possui tarifas um pouco mais baratas (uma corrida de R$ 100,00 vira uma de R$ 80,00). O que me leva a outra questão: eu bebo mais do que você e não corro o menor risco de ser preso, já que não estou dirigindo.

Esses são apenas alguns dos argumentos que me levam a pensar que a vida atrás de um volante é a versão sobre rodas da tortura chinesa: uma provação desnecessária que só contribui para complicar a vida alheia.

Se existe alguma forma de me fazer dirigir de forma rotineira? Bem, sim, existe, pra falar a verdade. Mas isso é pauta pra outro dia…

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1 comentário

  1. Concordo com você, meu caro, em vários pontos. Eu – cidadão convencional, padrão, default e standard – possuo carteira de motorista desde 92 e, mesmo assim prefiro deixar o carro na garagem e ir trabalhar de busão. Entretanto, também sou casado e pai de dois filhos e, por isso, tenho algumas considerações a fazer:

    1 – Compras no supermercado: de ônibus é impossível, de táxi também é horrível e, os esquemas de entrega em domicílio dos supermercados são sofríveis. Dessa maneira, acho que ter um carro nessas horas é excelente.

    2 – Levar um moleque doente no pronto socorro: não tenho sangue frio e paciência suficientes para, numa madrugada qualquer, chamar um táxi e esperar por ele com seu filho chorando e sua esposa desesperada e P da vida por não ter um carro pra chegar ao hospital rapidamente.

    3 – Viajar de carro é muito legal! Botar a galera no carro e partir pra algum destino aprazível é muito show.

    4 – Como quase todo brasileiro, convencional, padrão, default e standard, GOSTO MUITO de dirigir e de carros!

    Portanto, respeito sua opinião, mas também acho que pra certas coisas nessa vida, só carro resolve.

    Abraço!

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