Qual o tamanho do estrago da desinformação?

José Mentor (PT-SP), autor de projeto de Lei que visa banir o MMA

Pensa rápido: até onde vai o estrago causado pela desinformação de quem manda?

Essa é a pergunta que me fiz quando li aqui que deputado José Mentor, do PT de São Paulo (é, aquele da CPI do Banestado), autora um projeto de Lei que visa proibir exibições de “lutas não olímpicas consideradas violentas”, com punição de 150 mil reais para as emissoras – abertas ou fechadas – que descumprirem a norma e possível cassação à concessão de funcionamento (sair do ar, no bom pt-br).

Eu não preciso ser praticante do MMA pra dizer o quão boçal é o PL, uma vez que ele é fruto da mente de um homem que viu as duas únicas lutas exibidas pela Globo e comparou-as à “rinha de galo” (sério? RINHA DE GALO?). E é justamente nesse ponto que quero chegar com a pergunta que abre o texto: qual é o tamanho do estrago causado pela desinformação de quem manda?

Para me ajudar a responder à pergunta, chamei o jornalista d’O Globo, Gustavo “Guga” Noblat, que é um entusiasta do MMA como eu. Já adianto: o post vai ser meio grande.

“Mentor está incomodado com o sucesso do UFC. Ele não gosta de MMA sem nem conhecer o esporte. Teve uma impressão ruim quando viu uma ou duas lutas e passou a querer impor para a sociedade o gosto dele”. É assim que Guga abre suas impressões sobre a atitude do deputado.

Em sua coluna, o jornalista diz que o alvo da manobra política é, única e exclusivamente, o MMA. Não tenho como discordar da opinião dele pois, olhando bem o que rege o projeto (que até agora não tem a decência de ter uma página específica para ele), Mentor quer atacar “emissoras que exibirem” o esporte. Levando em consideração que somente as artes marciais mistas foram exibidas na televisão até agora (pode procurar: não há torneios de jiu jitsu e kung fu – duas lutas “não-olímpicas” – em tevê), só podemos – Guga e eu – concluir que Mentor simplesmente redigiu o PL por uma questão de preferência de consumo. Ele não curte MMA, então ele não quer o esporte por perto. É o mesmo que tentar proibirem a comercialização do iPad porque um ministro prefere Android.

Mais impressionante ainda é isolar “esportes não-olímpicos”, sendo que há esportes olímpicos que causam tanto ou mais estragos no corpo do que o MMA. Não serei demagogo aqui a ponto de dizer que MMA não é violento: é claro que é. Mas, antes de ser violento, estamos falando de um esporte que exige um alto preparo de resistência física: não é qualquer “zé-bostola” que sobe ao octógono e troca sopapos com mestres de três ou quatro artes marciais. E vou mais longe: boxe, um esporte olímpico, é muito mais perigoso que o MMA.

Clinicamente falando, as lesões oriundas do MMA são densas, porém imediatas. Um supercílio aberto causa enorme sangramento, mas eventualmente se fecha. O boxe, por ser centrado apenas na parte superior do torso, pode causar danos cerebrais que vão perdurar até bem depois da aposentadoria de um lutador. Quer dois exemplo? Rocky Balboa, no cinema, e a luta de Ray Mancini versus Duk Koo Kim, em 1982, exibida em TV aberta (CBS). Kim, devido aos danos cerebrais decorrentes de muitos golpes na cabeça, morreu cinco dias depois do embate.

Mancini vs. Duk: o lutador coreano morreu cinco dias após perder a luta para o campeão

Sobre isso, Guga fala: “O projeto de lei fala em esportes não olímpicos violentos. Ai, passa a ser algo totalmente subjetivo, já que dependerá da avaliação de um grupo de pessoas ligados ao Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana para ser exibido na TV. Se acharem que não é violento, ai passa na TV. Mentor já deixou claro em entrevistas passadas que o alvo dessa ação é somente o MMA”. Para ele, a questão de “ser um esporte olímpico” é muito mais política do que esportiva. “Se tornar um esporte olímpico é muito mais uma questão de lobby e de organização do que de regras que protejam o atleta. O boxe é comprovadamente um esprote mais traumático para o sistema nervoso do que o MMA. Mais incidentes graves, sequelas e mortes são registrados no boxe do que em qualquer outro esporte. Ou seja, ser aceito pelo Comite Olímpico não é o mais importante. O importante é criar regras que protejam o atleta e isso já foi feito”.

Justiça seja feita, é fato que existem lutadores de MMA que saíram mal de seus combates. Mais uma vez, ninguém quer ser demagogo a ponto de pintar o MMA como um esporte santificado e risk-free. Entretanto, é importante ressaltar: em oito anos, o MMA registrou duas mortes decorrentes de combate (outras foram casos isolados, como lutadores assaltados, suicídio etc.): Douglas Dedge, em 1998; e Sam Vasquez, em 2007.

No boxe, foram 70…que coisa, não?

Sam Vasquez (esq.) e Dougles Dedge (dir., deitado), os dois únicos lutadores a morrerem por causa do MMA, entre 1998 a 2006

Claro que eu levei os questionamentos ao próprio Mentor. E claro que eu não obtive resposta. Eu enrolei esse post em uma semana, para dar tempo de um parecer do político. Quem quiser, pode me procurar via e-mail que encaminho a correspondência.

Para ler:

Death in the ring has long been a part of boxing (ESPN.com)
Which is more Dangerous: Boxing or MMA? (AskMen.com)
Recent MMA deaths raise questions (MMA Junkie)

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