Os funkeiros estavam certos, afinal…

Eu moro na zona leste de São Paulo. Isso, sozinho, significa que tenho que lidar com o funk em uma base cotidiana. Diabos, meu irmão caçula já curtiu muito isso e hoje envereda-se pelas vias do pagode e do samba. Sem querer estereotipar nada nem ninguém, mas é um fato que a maior incidência de funkeiros por metro quadrado reside por estas ermas bandas.

E como um autêntico amante do rock que sou, eu nunca entendi a graça nesse gênero musical (sim, haters, me perdoem, mas mesmo a música que você não gosta também é “música”). As batidas são as mesmas, as letras são, quase que em sua totalidade, iguais nos assuntos que abordam – não há variedade artística nenhuma…e isso me incomoda. Por isso, não escuto.

Mas quando escalamos esse assunto para o ambito de negócios, o business do funk brasileiro (seja ele carioca, paulista, mineiro, gaúcho ou qualquer outro) mostra-se uma força econômica capaz de tudo o que os maiores empresários em outros ramos sonham em atingir: ter um público imediatamente cativado pelo que você faz, ganhando muito bem para isso.

Apresento-lhe Victor Hugo Vieira – “Vitinho”, para os íntimos e fãs. Carioca, residente do bairro do Jardim América, Rio de Janeiro, tem uma filha de seis meses e mora com a mãe. A princípio, os mais céticos podem dizer “e daí, mais um moleque da zona norte do Rio…”. Só que Vitinho, aos 19 anos e sem ensino universitário, lucra R$ 8 mil mensais sem sair do sofá de casa. Olha aí o motivo:

Vitinho é o compositor da música “Sou Foda”, escrita por ele em meados de 2010, quando ainda integrava o grupo “Avassaladores”. Hoje, um elemento fora do antigo grupo, Vitinho recebe essa grana toda por causa de direitos autorais, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Se você puxar da memória, vai lembrar: muita gente – muita gente mesmo – criou uma versão própria de “Sou Foda”. A de maior destaque na minha cabeça é a da cantora Naiara Azevedo (culpa da minha namorada – ela gosta e, como o carro é dela, eu não tenho poder de veto sobre o rádio – olha aí embaixo).

Esse é só um exemplo de como o funk, enquanto fenômeno de entretenimento social, dá certo. Tenho um amigo que mora aqui perto. Ele namora uma tal “MC Arlequina”. Diz ele que ela leva R$ 5 mil por show. Levando em conta que, pelos banners espalhados pelas casas da região, dá pra deduzir que ela faz pelo menos três shows por mês (claro que deve ser bem mais, mas acredite: “MC Arlequina” tem aos montes, apesar de ela jurar que o registro é dela), ela já leva mais ou menos o mesmo salário que um outro amigo meu, que trabalha na gerência de comunicação de uma multinacional fabricante de chipsets, tem fluência em dois idiomas, diploma universitário e de pós graduação. A diferença: assim como Vitinho, a tal Arlequina tem 19 anos, não fez faculdade e trabalha, em média, 40 minutos por show, uma vez que, em uma noitada de baile funk, raramente um MC se apresenta sozinho, e deve dividir o tempo do palco da casa com outros artistas.

Claro, tais métricas ainda são pífias quando comparamos esses cantores, com gente como Luan Santana e outros sertanejos dessa nova geração. Eu também não gosto, mas nao falho em reconhecer os méritos de Gusttavo Lima, cujo cachê, segundo a boca pequena, ultrapassa R$ 300 mil por show. Mas esses sertanejos, apesar de grandes em sucesso e dinheiro, são pessoas que seguem o padrão “normal”: são “descobertos”, assinam contrato com gravadora – e parte de seu cachê vai para assessores de todos os feitios e tamanhos, uma outra parte fica com o governo e, desses trezentões, o amigo Gusttavo Lima deve levar uns duzentos, “apenas”.

Mr. Catra, o expoente do funk brasileiro (Crédito da imagem: Royal Club Eventos)

Já os funkeiros são completamente informais. Fazem a própria propaganda, dependem quase que exclusivamente da pirataria, da venda de seus discos em camelôs de esquina e, claro, das redes sociais. Tudo isso para aumentar a própria popularidade a ponto de deixar que seus nomes de palco falem por si, ao invés da venda de discos. Quer uma prova? Mr. Catra, possivelmente o maior nome do funk brasileiro, só teve uma gravadora, totalmente independente, em sua vida, na época em que tinha acabado de sair de uma banda de rock (sim, ele foi rockeiro). Dali, ele enveredou para o rap, na melhor pegada “Racionais MCs” e, a partir de então, fincou raízes no funk e abriu sua própria gravadora – um selo chamado “Rapsoulfunk”, ao qual são afiliados nomes, hoje, bastante populares, como Valesca Popozuda.

Em constraste a isso, vejo as piadinhas de Facebook dizendo o quanto as funkeiras…digamos…engravidam com facilidade. Apesar de isso provavelmente ser verdade na maioria dos casos, levemos em conta que um relativo sucesso já mais do que paga as contas – e ainda sobra.

E eu aqui, na minha vidinha de frila…

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